O Presépio: a origem da estrela de Belém

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“E eis que a estrela que tinham visto no céu surgir ia à frente deles (magos) até que parou sobre o lugar onde se encontrava o menino1
Evangelho de Mateus    
“E eis que a estrela que (os magos) tinham visto no Oriente ia diante deles até que entraram na caverna, e ela (a estrela) postou-se no umbral da caverna.” 2
Evangelho da Infância de Tiago

Fonte: https://pt.wahooart.com/@@/8XY4X2-Giotto%20Di%20Bondone-Adora%C3%A7%C3%A3o%20dos%20Reis%20Magos
Adoração dos Reis Magos e a estrela de Belém

 

Antes de começarmos a discorrer sobre a visita de magos ao menino Jesus, achamos relevante elaborar um artigo, que deve ser considerado preliminar, acerca da estrela que os guiou. Posteriormente, vamos publicar um artigo sobre a tradição da visita.
Pois bem, estamos diante de duas fontes, uma canônica (evangelhos contidos no Novo Testamento) e outra apócrifa (evangelhos ocultos e proibidos pela Igreja) que também relatam que magos foram orientados por uma estrela para chegar até o local onde Jesus nasceu. Sendo assim, é fácil entender porque encontramos em alguns presépios a estrela no topo.
Sem levar em consideração, nesse momento, o ambiente onde ele nasceu, pois as referidas fontes divergem sobre esse assunto, e nem mesmo a verossimilidade de tal evento, temos duas fontes que relatam sobre a estrela. Mas isso seria motivo para atestar a veracidade da tradição?
A resposta é negativa. A composição do evangelho da Infância de Tiago é bem posterior ao de Mateus. É fácil inferir que o autor do apócrifo teve acesso as tradições do nascimento contidas em Mateus, tendo o trabalho de copiá-las e adequá-las as suas necessidades. Citamos algumas tradições contidas em ambos os manuscritos: a virgindade de Maria, o sonho que José teve com um anjo do Senhor, dizendo-lhe para receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo, a visita dos magos e a matança das crianças em Belém por Herodes.
Sendo assim, a tradição mais antiga da estrela, continua sendo a de Mateus.
Nós gostaríamos de chamar a atenção do querido leitor que Mateus relata que a estrela, vulgarmente chamada de “A Estrela de Belém”, levou magos do Oriente até Jerusalém, acreditando que aquele evento singular era o sinal do nascimento do rei dos judeus. Depois de terem tratado o assunto com Herodes, rei da Judeia, ela continuou guiando-os até Belém, no lugar onde o Cristo nasceu, segundo a tradição. O referido evangelho apócrifo é concordante com Mateus nesse aspecto, sendo praticamente uma cópia.
A Bíblia Jerusalém traz nota a respeito dos magos na tentativa de compreender como eles conseguiram interpretar o movimento da estrela, afirmando que eles podem ser considerados sábios astrólogos provenientes do Oriente.
Tratemos agora da verossimilidade: para que magos chegassem até o local do nascimento de Jesus, apenas guiados por uma estrela, fora necessário existir um astro que burlasse as leis da física, pois ela estava à frente deles até parar sobre o lugar onde se encontrava o menino. A própria Bíblia de Jerusalém admite que se trata de um astro miraculoso. Mais delirante é o relato apócrifo, afirmando que a estrela entrou na caverna, postando-se na escuridão.
Numa tentativa de buscar compreender de onde Mateus tirou essa tradição lendária, teceremos as seguintes considerações do ponto de vista astronômico:
a)    A estrela de Belém foi um cometa
fonte: https://www.ricardocosta.com/tapecaria-de-bayeux-c-1070-1080
Rei Haroldo II assume o trono inglês durante a passagem do
    cometa Halley, sendo interpretada como um mau presságio,
       pois ele é morto ao final da batalha de Hastings.  

Há registros feitos por astrônomos que cometas foram avistados no período próximo ao nascimento de Jesus. Com efeito, os cometas gravitam em torno do Sol, aproximando-se e distanciando-se da Terra em períodos regulares. A sua cauda, por sua vez, nos dá a impressão que ele esteja apontando para algum ponto no horizonte. Porém, observadores em lugares diferentes, terão percepções diferentes do “apontamento” do cometa.

Sendo assim, foi possível avistar o famoso cometa Halley no ano 12 AEC4 ou 5 ou 6.
Astrônomos chineses afirmam que, por volta do ano 5 AEC, apareceu um cometa na constelação de Capricórnio4 ou 6.

https://super.abril.com.br/ciencia/onde-esta-o-cometa-halley/
Cometa Halley. Visita a Terra a cada 75 anos aproximadamente. 

 

O problema desta teoria é que, diante da singularidade do nascimento do Cristo, cometas não são eventos muito raros. O Halley, por exemplo, pode ser avistado a cada 75 anos aproximadamente, senso a sua última passagem pela Terra foi em 19867. Além disso, há diversos registros de cometas ao longo da história8. Outra questão é que eles foram associados a um mau presságio por perturbar a ordem do firmamento e por ser um aviso de flagelos, morte e destruição. Apesar disso, é possível encontrar obras de arte da Idade Média representando o presépio com os magos guiados por um cometa9.   
b) A estrela de Belém foi uma “nova’ ou “supernova”
De forma bem sucinta, diremos que a “nova” ou “supernova” é o aumento brusco e excessivo da luminosidade de uma estrela, provocado por explosões nucleares. Esse fenômeno, dependendo das circunstâncias, pode ser visto a olho nu, podendo perdurar por dias e até meses. Sendo assim, segundo o registro de astrônomos do Oriente, ocorreu numa “nova” na pequena constelação de Áquila, por volta do ano 4 AEC.4 ou 6
Fonte: http://astro.if.ufrgs.br/evol/node51.htm
Super Nova descoberta em 1987

Somos forçados a concordar que o relato do evangelho da Infância de Tiago lembra muito uma “nova” ou “supernova”. Eis a reposta dos magos a Herodes sobre os sinais que viram no céu a respeito do rei dos judeus:

“Vimos uma estrela magnífica surgir brilhando entre as demais estrelas e obscurecendo-as, de maneira que as outras estrelas desapareceram.” 2
Segundo estimativas dos astrônomos, ocorrem em média 5 novas por ano em galáxias como a via láctea. No entanto, as supernovas são eventos mais singulares, com média de uma a cada 300 anos. Ao longo da história, há registros de 4 supernovas6.
c) Conjunção Tripla
Esta teoria é, sem dúvida, a mais engenhosa e que mais se adequa as tradições da Estrela de Belém. Segundo o astrônomo David W. Hughes, especialista no assunto, ele leva em consideração a ida dos magos primeiro a Jerusalém e depois a Belém, conforme a tradição. Ele afirma que “a melhor explicação para essa série de eventos é algo conhecido como conjunção tripla entre Júpiter e Saturno – com os dois planetas aparecendo próximos no céu por três vezes em um curto período. Isso acontece quando você tem um alinhamento entre o Sol, a Terra, Júpiter e Saturno. E uma vez que os planetas se alinhem em suas órbitas, a Terra “ultrapassa” os outros, o que significa que Júpiter e Saturno pareceriam então mudar de direção no céu da noite.”4
https://www.skyandtelescope.com/astronomy-news/observing-news/venus-jupiter-conjunction-this-weekend-with-mars-too/
Conjunção entre Júpiter, Vênus e Marte


O fenômeno da conjunção entre planetas é o mais raro de todos, e segundo cálculos dos astrônomos, ocorreu no ano 7 AEC6. Porém, vale ressaltar que não houve um alinhamento preciso que pudesse ser caracterizado como uma única estrela5.      

Pois bem, querido leitor, não foi intenção com essas considerações buscar explicações na ciência para justificar a tradição da “Estrela de Belém”. Apesar dos esclarecimentos serem dignos de respeito, faz-se necessária boa dose de fé para acreditar que qualquer que fosse o evento astronômico, este levaria os magos a concluir que se tratava do nascimento do rei dos judeus e que os levaria até ele para ser adorado.  
Nossa intenção foi apenas compreender o que pode ter motivado Mateus a escrever sobre o assunto. Muitas civilizações antigas tinham uma relação muito próxima com os astros, pois acreditavam que eles influenciavam em nossos destinos, e até hoje muitos acreditam. Um evento astronômico dessa natureza, tais como foram relatados acima, pode ter chegado ao conhecimento de Mateus que buscou uma associação desse evento com o nascimento do Cristo.
Pois bem, querido leitor, terminamos mais uma etapa na busca do Jesus Histórico. Como dissemos inicialmente, este artigo preparou o caminho para tratar de outra tradição do presépio: os três reis magos. Até a próxima! 
Por João Viegas
  Referências bibliográficas:
1. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap 2 vv 9.
2. Revista Super interessante – Série Grandes Mistérios – Os Evangelhos Proibidos – O Lado oculto do Cristianismo Editora Abril – ISBN 978-853641547-5   
3. Klauck, Hans-Josef. Evangelhos Apócrifos, 1º reimpressão maio 2016. Edições Loyola, tradução Irineu J. Rabuske. 
9.http://www.ccvalg.pt/astronomia/noticias/2013/11/15_cometas_historia.htm
11 http://www.siteastronomia.com/novas-e-supernovas-o-que-sao
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