O Presépio: a Origem dos Reis Magos

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Presépio esculpido pelo artista barroco Machado de Castro.
Encontra-se na Basílica da Estrela, em Lisboa.
Há registros de que os presépios em Portugal começaram a ser esculpidos por artistas a partir do séc. XVI EC. As Igrejas foram contempladas por essas obras esplendorosas, que eram normalmente financiadas pela nobreza da época.
Um dos escultores barrocos portugueses mais renomados chama-se Machado de Castro1. Ele foi contratado pela Rainha D. Maria para esculpir um presépio com peças de barro, pois ela tinha feito uma promessa: mandou erguer a Basílica da Estrela, em Lisboa, na esperança de ficar grávida.
O grandioso presépio do magnífico artista encontra-se no interior da Basílica. Ele possui mais de 400 imagens que retratam cenas bíblicas e do cotidiano. É considerado o primeiro presépio com a adoração dos reis magos ao menino Jesus.
Feita essa breve introdução com viés artístico, daremos prosseguimento aos nossos estudos. Afinal de contas: foram três, reis, ou simplesmente magos que visitaram o menino Jesus?
Segundo o evangelista Mateus, “eis que vieram magos do Oriente a Jerusalém, perguntando: “ Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos sua estrela surgir e viemos homenageá-lo2
Mateus continua:
“Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e procurou certificar-se com eles a respeito do tempo em que a estrela tinha aparecido. E enviando-os a Belém, disse-lhes: “Ide e procurai obter informações exatas a respeito do menino e, ao encontrá-lo, avisai-me, para que também eu vá homenageá-lo.3
Sendo assim, os magos seguiram para Belém, guiados pela mesma estrela que surgiu, até o lugar onde o menino estava.
“Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se o homenagearam. Em seguida, abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra.”4
O texto termina com a tal matança das crianças em Belém, de dois anos para baixo, ordenada por Herodes, pois fora enganado pelos magos. Eles voltaram para sua região por outro caminho que não passasse por Jerusalém, pois assim foram advertidos em sonho. 
Principais personagens do presépio da Basílica da Estrela:
Maria, José e o menino Jesus
Apesar de Mateus ser o único evangelista canônico a relatar sobre os magos, podemos encontrar discurso muito semelhante num manuscrito apócrifo denominado protoevangelho de Tiago, ou evangelho da Infância de Tiago. O texto é tão parecido que é fácil inferir que foi simplesmente copiado.
O leitor atento vai observar que Mateus não afirma que os magos são reis, nem muito menos três. Pode-se afirmar apenas que foi mais de um. Talvez pelo número de presentes, julga-se quantos magos foram homenageá-lo.
Outra questão, não menos relevante desta passagem, é que o menino foi encontrado pelos magos apenas com sua mãe em uma casa. Sendo assim, José, pai do menino, simplesmente evaporou do discurso de Mateus desde o nascimento de Jesus. Ou seja, o presépio inspirado por Mateus não tem José.
O Padre Raymond Brown, considerado o decano dos especialistas do Novo Testamento, em sua monumental obra “O Nascimento do Messias”, levanta a tese de que existem diversas dificuldades para a historicidade da visita dos magos, sendo bem provável que essa estória seja resultado de uma “profecia historicizada”9. Ou seja, os magos de Mateus foram uma elaboração inspirada nas antigas profecias do Messias encontradas no Antigo Testamento.
O ilustríssimo padre chama a atenção para três aspectos da narrativa de Mateus que enfraquecem seu caráter histórico. Porém, achamos suficiente transcrever apenas um que segue abaixo:
A estória está muito mal contada:
“A narrativa do episódio em que Herodes reuniu os sacerdotes e escribas para consultá-los não revela nenhuma percepção da amarga oposição que existia entre Herodes e os sacerdotes nem do fato de não estar o sinédrio (grupo formado pelos sacerdotes) à sua disposição… O desconfiado Herodes não faz nenhuma tentativa de seguir os magos na viagem de 8 km, de Jerusalém até Belém. Dá para imaginar a impressão que os magos exóticos vindos do Oriente com presentes régios causaram em um pequeno povoado; porém, quando eles vão embora, o sistema de espionagem de Herodes não descobre que menino eles visitaram. O massacre de todos os meninos de dois anos para baixo não é mencionado no relato detalhado que Josefo faz dos horrores do reinado de Herodes.”8
O presépio da Basílica da Estrela é considerado
o primeiro com adoração dos Reis magos
Pois bem, querido leitor, se os magos foram uma invenção de Mateus, de onde ele pode ter tirado ela? De qual passagem do Antigo Testamento?
O padre Brown responde a essa questão remetendo-se a história de Balac e Balaão que pode ser encontrada em Números e que agora reproduzimos de forma resumida:
Balac é rei de Moab e seu povo está com pavor dos israelitas diante das suas conquistas territoriais provenientes das guerras. Num ato de desespero, o rei chama Balaão, que é uma espécie de profeta ou mago, as suas terras. Balaão vai ao encontro do rei acompanhado de dois de seus servos. Chegando em Moab, o rei Balac conclama Balaão a amaldiçoar os israelitas. Porém, o Deus que fala por Balaão, que é Jeová, o Deus de Israel, faz justamente o contrário: ele os abençoa. Por fim, uma das profecias de Balaão é a seguinte:
“Eu o apontarei, mas não agora; eu o contemplarei, mas não de perto; nascerá uma estrela de Jacó, e um homem sairá de Israel.”8
Ao final, Balaão retornou a sua terra sem atender à solicitação do rei Balac.
Segundo Brown, “no judaísmo antes do tempo de Jesus, essa passagem já era aplicada ao Messias, o rei ungido.” 8
Analisando as duas passagens podemos encontrar diversos paralelos:
Balaão, que é uma espécie de mago ou profeta, e seus servos se deslocam de suas terras ao encontro do rei Balac; os magos de Mateus também se deslocam de suas terras ao encontro do rei Herodes. Balaão profetiza afirmando que nasceria uma estrela simbolizando o Messias; os magos de Mateus viram uma estrela surgir que os levaria até o Messias. Balaão fora advertido por Jeová para que não atendesse o rei Balac de amaldiçoar o povo de Israel; os magos de Mateus foram advertidos em sonhos para não atender à solicitação do rei Herodes de informá-lo sobre o paradeiro do menino Jesus. A tentativa do rei Balac de amaldiçoar o povo de Israel é fracassada, assim como a tentativa do rei Herodes de matar o rei dos judeus (Jesus). Por fim, Balaão volta as suas terras; assim como os magos de Mateus.
            Evidentemente, as duas passagens possuem divergências, mas não há como negar as diversas semelhanças.

Quadro Comparativo entre as tradições dos Magos, contida no Novo Testamento e de Balaão e o Rei Balac contida no Velho Testamento

Segue, portanto, que é bem provável que a visita dos magos fora elaborada por Mateus para atender o seu viés teológico, pois de maneira análoga aos animais do apócrifo de pseudo-Mateus, conforme já discutido em artigo anterior (O Presépio: as Origens dos Animais) a presença deles era uma forma de reconhecer o menino como rei dos judeus por outros povos, prestando suas homenagens com presentes. Ao mesmo tempo, estavam se cumprindo as profecias do Messias com o nascimento de Jesus. Veja abaixo o que a Bíblia de Jerusalém diz a respeito:
Os presentes dos magos são “riquezas e perfumes da Arábia. Para os padres da Igreja simbolizam a realeza (o ouro), a divindade (o incenso) e a paixão (mirra) de Cristo. A adoração dos magos era o cumprimento dos oráculos messiânicos a respeito da homenagem que as nações prestariam ao Deus de Israel.”5   
Afinal, de onde surgiu a tradição dos três reis magos e de seus nomes?
Uma das profecias do Antigo Testamento citadas pela nota da Bíblia de Jerusalém pode explicar a origem da tradição que os magos são reis. Segue abaixo:
“Os reis Társis e das ilhas vão trazer-lhe tributo. Os reis de Sabá e Sebá lhe pagarão tributo; todos os reis se prostrarão diante dele, as nações todas o servirão.”6 
Segundo a Mestre em História Joelza Ester Domingues, foi no manuscrito chamado Excerpta Latina Barbari, de Alexandria, escrito por volta do ano 500 EC, que está a mais antiga menção aos nomes dos Magos: Bithisarea, Melichior e Gathaspa.

Uma das representações mais antigas dos três Reis Magos está em formato de mosaico na Igreja São Apolinário Novo, na Itália, datado do ano 565 EC

Continuando a citar Domingues, “foi o monge beneditino inglês São Beda, o Venerável (673-735) que, seu tratato Excerpta et Colletanea, que deu forma e origem às figuras dos reis magos que a iconografia e a tradição cristalizaram. São Beda associou os reis magos a regiões do mundo antigo: Melchior, rei da Pérsia; Gaspar, rei da Índia; Baltazar, o único negro, rei da Arábia.” 7  
Segue, portanto, que as tradições concernentes a visita dos magos ao menino Jesus é resultado de uma profecia historicizada9do Antigo Testamento, além da aglutinação de diversas tradições canônica, apócrifa, e documentos muito posteriores a formação do Novo Testamento.
Uma questão que gostaríamos que o querido leitor refletisse é que a ida dos Magos a Jerusalém, a visita ao recém-nascido e a própria matança das crianças, só fazem sentido se Jesus tivesse nascido em Belém da Judeia. Porém, argumentamos, em artigo anterior (As Controvérsias do Nascimento de Jesus de Nazaré – Onde nasceu?), que, muito provavelmente, Jesus nasceu em Nazaré, na Galileia, fora da jurisdição de Herodes, a despeito das crenças acerca do Cristo.      
Além disso, é preciso ter boa dose de fé para acreditar que a estrela que guiou os magos até o Cisto, fez movimentos miraculosos do Oriente até Belém, lugar onde a tradição afirma ter nascido o Salvador. Este tema já foi discutido em artigo anterior (O Presépio: As origens da estrela de Belém).
No momento, querido leitor, faremos outra pausa sobre esse tema. Em breve, serão desenvolvidos e publicados mais artigos para discorrer sobre as outras personagens do presépio. Até a próxima! 
Por João Viegas
    Referências bibliográficas:
2. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap.2 vv 1 e 2.
3. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap.2 vv 7 e 9.
4. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap. 2 vv11
5. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus. cap 2 vv 11
6. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Salmos cap. 72 vv 10 e 11.
7. Blog: Ensinar História – Joelza Ester Domingues Disponível em https://ensinarhistoriajoelza.com.br/reis-magos-realidade-ou-lenda/
8. Brown, Raymond. O Nascimento do Messias: comentário das Narrativas da Infância nos Evangelhos de Mateus e Lucas. Tradução: Bárbara Theoto Lambert. Editora Paulinas. São Paulo. 2005.
9. Crossan, John Dominic. Quem matou Jesus? As Raízes do Anti- Semitismo na História Evangélica da Morte de Jesus. Tradução: Nádia Lamas. Editora Imago. Rio de Janeiro. 1995. 
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