Tambores de Terreiros Silenciados

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Traficantes entram armados em terreiro, ameaçam 
fiéis e depredam símbolos religiosos
Foto/Divulgação: TV Globo
Resolvi escrever esse artigo, que é uma compilação de diversas reportagens da imprensa, por indignação e repúdio aos casos de intolerância religiosa sofridos por umbandistas e candomblecistas, principalmente no ano passado. Por se tratar de uma minoria da sociedade brasileira que deposita sua fé em religiões ainda muito discriminadas, declaro minha solidariedade a todos que foram impedidos de exercer o seu direito ao culto religioso, previsto na Constituição Federal, sob ameaças de fuzis. Minha intenção também é sensibilizar o movimento espírita ao debate sobre questão tão grave e atual que pode bater à porta de qualquer instituição religiosa. Convido, portanto, querido leitor, a embarcar comigo e que ao final, possamos juntos levantar essa bandeira contra a intolerância religiosa. Vamos lá?
Traficantes, convertidos à fé cristã, resolveram fechar terreiros de umbanda e candomblé no Estado do Rio de Janeiro. Numa ação coordenada em maio de 2019, eles invadiram diversos terreiros armados de fuzis, destruindo símbolos religiosos e ameaçando à morte aqueles que insistissem em continuar suas práticas religiosas.
Uma das vítimas que não quis se identificar faz o seguinte relato sobre as ações desses criminosos:
Os barracões foram obrigados a fechar e está proibido. Não se toca mais o candomblé, não se toca mais a umbanda, não se exerce o direito de ser um brasileiro”.1
E continua:
Ninguém é maluco de peitar. Foram 15 barracões, 15 babalorixás de nome, de respeito, que não vão poder mais ser cidadãos”.1
Ivanir dos Santos é representante da
Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do RJ
Foto/Divulgação: TV Globo
De acordo com Ivanir dos Santos, que é representante da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro, só em 2019, há, pelo menos, 200 casas sob ameaças de criminosos2, tanto no estado quanto na capital. No entanto, esses casos de intolerância religiosa ocorrem desde 2017, sendo intensificados no ano passado. A polícia afirma que as regiões onde ocorrem esses crimes são dominadas por uma mesma facção criminosa. São elas: Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Campos e bairros das zonas norte e oeste da cidade do Rio de Janeiro.
Diante deste quadro, o Ministério Público Federal (MPF) abriu um inquérito sobre o assunto. Em entrevista concedida a TV Globo, o procurador da República, Júlio Araújo, esclarece: “a nossa esperança do MPF é que o tema entre na agenda, que,…, a violência religiosa seja encarada como uma questão de dignidade dessas pessoas, que efetivamente a gente consiga inibir essas práticas”.1     
A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), criada em 2018, é a responsável por investigar esses casos e pede a população que denuncie esses crimes.
Em julho do mesmo ano mais um crime ocorreu em Duque de Caxias. Criminosos armados invadiram uma casa que funcionava há 50 anos e obrigaram a líder religiosa do local, com mais de 80 anos de idade, a quebrar todos os símbolos que representam os Orixás. Além disso, ameaçaram voltar para atear fogo no terreiro. O caso foi registrado na Decradi.2   
Pai de Santo Roberto Braga é líder religioso
de um terreiro em Nova Iguaçu
Foto/Divulgação: TV Globo   
Enquanto esses crimes não se resolvem, religiosos vivem com medo de exercer a sua fé. O Pai de Santo Roberto Braga, líder de um terreiro em Nova Iguaçu, desabafa: ”Quando você proíbe alguém de executar, de exercer sua função sacerdotal já é uma grande violência. É impossível você se manter firme na hora que,…, é proibido de exercer o seu credo1. E arremata dizendo: ”Estão todos com medo1.
Após 3 meses de investigação, a Polícia Civil do Rio de Janeiro fez uma operação contra a intolerância religiosa em Duque de Caxias que culminou na prisão de 8 pessoas e morte de 1 homem4. Segundo a polícia, eles faziam parte de uma facção criminosa responsável por ordenar o fechamento de terreiros naquela região.
Segundo o delegado Túlio Pelosi, responsável pela investigação, eles integravam uma facção criminosa denominada “Bonde de Jesus”4. Foram identificados 21 traficantes, dos quais 8 foram presos nessa operação.
Álvaro Malaquias Santa Rosa, vulgo Peixão
é suspeito de participar dos ataques a terreiros no RJ
Foto/Divulgação: G1
O chefe do Terceiro Comando Puro (TCP) no Parque Paulista, em Duque de Caxias, além de outras regiões do Rio de Janeiro é Álvaro Malaquias Santa Rosa, mais conhecido como Peixão, que segundo a autoridade policial, é pastor de uma igreja evangélica.
Ele ia com esse grupo em terreiros de macumba, quebravam e ameaçavam os frequentadores, no sentido de fechar os terreiros. É um caso claríssimo de intolerância religiosa. O que ele quer é que terreiros de macumba não funcionem em comunidades dominadas pelo Terceiro Comando”4, afirmou o delegado”.
A autoridade policial continua com uma linha de investigação surpreendente.
Abrimos outra investigação para analisarmos a atuação de um pastor como ‘porta voz’ de Peixão nestes crimes”.4
Pelosi afirma ainda que os traficantes frequentam a Assembleia de Deus Ministério de Portas Abertas no Sarapuí, igreja de Duque de Caxias, sendo Peixão, um dos pastores.4 e 6  
 As reportagens consultadas afirmam que tentaram entrar em contato com os advogados do suspeito e da instituição religiosa, porém sem êxito.
Fomos em busca da reação da comunidade cristã acerca desses casos de intolerância religiosa. Tendo em vista que esses crimes são praticados há anos, encontramos uma nota publicada em setembro de 2017: a Aliança de Batistas do Brasil faz um discurso contundente contra crimes de ódio, racismo e liberdade religiosa.  
Repudiamos esses bárbaros atos não somente por que se configuram enquanto crimes de ódio, mas por que defendemos o respeito e a liberdade religiosa para todas as pessoas e, por isso, buscamos “Celebrar a diversidade da vida e da humanidade em todas as suas formas, respeitando as diferenças e promovendo o diálogo””.8
Bispo da Diocese de Campos, Dom Roberto Francisco Ferrería
repudiou os ataques a terreiros.
Foto/Divulgação: Folha1
Após ataques de criminosos a terreiros em Campos, Estado do Rio de Janeiro, em maio de 2019, o bispo da Diocese daquela localidade, Dom Roberto Francisco Ferrería Paz, também emitiu nota repudiando os ataques.
Repudiamos e manifestamos nosso total desacordo e desconformidade com a perseguição religiosa, a intolerância e violência que levou ao fechamento de terreiros. O desrespeito à liberdade religiosa e à liberdade de consciência ferem profundamente a democracia, a convivência social e torna-se uma grave ameaça à paz. Nossa bênção de consolação e paz9, disse o bispo.
 Querido leitor, é fácil ver nesta reportagem que grupos criminosos fundamentados numa visão distorcida da fé cristã resolveram praticar crimes de intolerância religiosa. Este tipo de prática deve ser repudiado por todas as denominações religiosas, em especial pelas cristãs diante de um caso tão absurdo como esse.
As discordâncias teológica e filosófica existentes entre as religiões sobre a sua conduta em vida, práticas de ritos religiosos e seu destino após a morte jamais poderão ser motivos de impedir as pessoas, quem quer que seja, de exercer seu sagrado direito, garantido pela Carta Magna, à diversidade de culto.
Finalmente, dedico este artigo a todos os umbandistas e candomblecistas que ainda veem sua fé ameaçada pela força do crime, pelo preconceito e extremismo religioso. Num ato de muito respeito e admiração saudou os Orixás: “Laroyê, Exu! Exu Mojubá!”; “Ogum yê!”; “Oke Arô!”; “Epa Hei!”; “Ora Yê Yê Ô!”; “Odoyá”; “Atotô”; “Saluba Nanã; “Euê-ô! Euê-ô! Euê-ô!”; “Kaô kabecilê!” e; “Êpa Babá”7
           Por João Viegas

Referências bibliográficas
1 – https://globoplay.globo.com/v/7647281/podendo ser visto em
2 – https://globoplay.globo.com/v/7759761/podendo ser visto em
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2 comentários sobre “Tambores de Terreiros Silenciados

  1. Sempre triste se deparar com qualquer tipo de prevonceito, intolerânciamas, e qd se trata de intolerancia religiosa, nossa, é ainda mais incompreensivel. Fala-se muito do livre arbítrio, mas so se fala, muitos dos que se acham religiosos e conhecedores da palavra, da bíblia, sao os mais intolerantes, criam uma disputa, uma concorrência, cono se junto do Pai, tivesse apenas algumas vagas, e que precisa lutar com os irmãos por essa "vaga", onde o ideal é ajuda-los a também chegar la. Não combina alguem q estuda a bíblia, conhece a verdadeira intenção de Deus, ter preconceito, intolerância religiosa. Vamos repensar sobre o livre arbítrio!

  2. Sou muito grato pela sua participação e colaboração no blog sobe tema que noz traz tanta indignação.
    Concordo com você, meu amigo, que as religiões deveriam promover em nossa sociedade sentimentos mais nobres que aproximem as pessoas pelo que elas são, não pelo que elas acreditam. A diversidade
    de pensamento, seja qual tipo for (religiosa, orientação sexual, política, filosófica etc.), dentro de um contexto democrático, deve ser utilizada para nosso aprendizado enquanto espírito imortal. Aprender com a diversidade é saber conviver com o diferente, com o que nos causa estranheza e escândalo. E saber conviver com o diferente é se conscientizar que todos tem direito a manifestar suas crenças e ideologias, e que nós tenos o dever de garantir que esse direito seja preservado, tendo em vista que precisamos dele também. No entanto, meu amigo, infelizmente existem àqueles que interpretam equivocadamente as escrituras cristãs para justificar os seus delírios. Isso é o que chamamos de fundamentalismo religioso, tema que foi tratado por anteriormente por mim quando houve o ataque de extremistas islâmicos à editora do jornal "Charlie Hebdo" em Paris, na França. Este artigo chama-se "Liberdade, Religião e Fanatismo", do qual recomendaalmos a leitura. Segue o link: https://espiritismonaessencia.blogspot.com/2015/02/liberdade-religiao-e-fanatismo-parte-iii.html?m=1
    Um grande abraço!

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